21/09/2008

Não sei quantas almas tenho


Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi, nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma
Quem tem alma não tem calma
Quem vê é só o que vê
Quem sente não é quem é.
Atento ao que sou e vejo
Torno-me eles e não eu
Cada sonho meu ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem
Diverso, móbil e só
Não sei sentir-me onde estou
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo
O que passou a esquecer
Noto à margem do que li
Releio e digo: "Fui eu?"
Deus sabe porque o escreveu.

Fernando Pessoa

1 comentários:

julio de castro disse...

confesso, nunca afinei-me com este pessoa. mas entendo, racional e infelizmentemente, que é bonito.

abração