24 de dez de 2010

O Pianista


Abriu os olhos e não conseguia entender o que estava vendo, seus olhos cansados queriam lhe contar mentiras.

O velho Pianista estava inerte na cama, a lareira já não aquecia, as cortinas permaneciam fechadas, a pouca mobília estava velha e gasta. Aquele ambiente sepulcral era seu quarto, o lugar onde ele se perdera do mundo, onde havia sido enterrado com sua música.

Havia feito concertos magníficos, as óperas mais aplaudidas, havia escrito as notas mais cobiçadas pelos músicos de todos os tempos. Suas músicas tacavam os corações, acalmavam as almas e tranquilizavam os espíritos.

Mas o mundo esqueceu o velho Pianista, agora ele não passava de uma peça de museu enrugada, um musica ultrapassado. O mesmo mundo pelo qual havia escrito as mais belas canções, o jogou naquele sepulcro.

Todos os dias, ao acordar, seus olhos sobrevoavam o lugar e não o reconhecia. Porém, quando pousavam naquele piano abandonado, sua alma era invadida pelo lume da saudade. Pobre Pianista prometeu a si mesmo nunca mais abrir o piano e tocar, nesse dia, entretanto, ele parecia chamá-lo como em tempos remotos, para que juntos tocassem uma última música.

Com muito esforço, o Pianista alcançou o antigo piano e das notas que tocou ecoou pelo quarto um som triste e desafinado, mas no coração do músico aquelas eram notas de libertação. Ele as tocava para si não mais para um mundo egoísta. Não havia mais mentiras, eram as suas melodias, o seu concerto e o seu fim.

- Tem que ser assim!

Seus olhos, então, se fecharam, e das notas que tocava seus dedos pouco a pouco perdiam a ferrugem de anos, mais uma vez sentado ali, encarando o seu destino. A primeira vez em anos e, a última.
"Em que espelho ficou perdida a minha face?"

4 comentários:

Vero Martinelli disse...

http://br.olhares.com/o_cadaver_de_um_velho_piano_foto2696775.html

mozi.neri@gmail.com disse...

Verônica que conheci no IP da UFRJ, em 2006, numa optativa de teoria psicanalítica? Será? Comecei a ler e gostei... seus escritos já estão publicados?


Beijos,
Mozilene (ex aluna, migrante, na época, do curso de Letras)

Tod(as) palavras disse...

tecido com extrema sensibilidade e talento. meu abraço.

marcosa disse...

Belíssimo.

Queria ver mais por aqui. Parou?